Sunday, February 21, 2010

Ellla, cronometrada e comentada.


Ainda estou com os poemas, e o cheiro nas mãos nada apaga, nada tira o cheiro forte da rua, do sol. E os poemas, tantas palavras tontas palavras...talvez isso seja o poema...

“A fama da Sheyla cresceu tanto nos saraus poéticos e slams que as pessoas já não iam apenas para vê-la, você tinha que ser visto vendo a Sheyla”.

Ginástica intelectual.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 17h 11min.

Hipotecar sua própria liberdade futura. Num tom tão definitivo que nenhuma réplica era possível.

Nunca perdia tempo e mostrava em tudo um ardor apressado cuja origem me era desconhecida. Síndrome de home less, sempre que passava por hotéis pegava um cartão. Sentimento de permanência, urgência.

O vínculo entre sua obsessão com as palavras e sua maneira torrencial de falar, de modo denso, armazenada em sua memória precisa, e raramente repetidas.

É dada a largada.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 18h.

Quando Ellla chegou na rodoviária vestia algo indiano,visual exótico,lenço nos cabelos esvoaçantes, se vestia como uma hippie tardia, mas nada nela era tardio,tudo nela urge. Speed freak da poesia. Nunca perdia tempo e em tudo era um ardor apressado, como a velocidade com que as rimas e as palavras nao óbvias brotam de sua boca.

Gesticulava e se movimentava como um Neal Cassady de saias. Sheyla habita a velocidade com sua felicidade embutida e sua inquietude latente.

A sua poesia sinalizava algo novo, que estava na superficie das ruas, como On the Roadie e os caras mais modernos. E propunha um novo tipo de existência nesse nosso mundo caótico e maravilhoso.

Me deu um beijo e um abraço bem forte.

-Já comeu? Tem dias que não como nada decente. Vamos pro Escócia, na Augusta comer o misto quente 'melhor do universo'-eu disse.

No caminho Ellla assobiava um funk 2000 da extinta banda carioca Boato e eu como de costume não parava de falar...


No Escócia.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 19h 05min.

Peço para o China dois mistos. Lógico que ele não me reconheceu, nem se flagrou. Sofro desse problema de só ser reconhecido pelos meus parceiros famosos. É assim com a minha ex-namorada Jô que me viciou nesse bar, e também quando circulo pela Vila Madalena com Lobão ou na Europa com Nana Caymmi e Nina Simone.

De saideira, pedi dois cafés com conhaque sob o impacto do olhar do China, mas ele sabia que isso era um pedido clássico. Aprendi esse drink com a Bibi Ferreira quando eu, um jovem desorientado, trabalhava com ela na peça Gota D’água.

Ensaios e devaneios no camarim.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 13h 03min.

Descobri o texto original do Liége, que a própria, minha eterna musa, havia feito. E o meu poema Liége na realidade era uma resposta ao dela. Então a Sheyla resolveu fazer assim, cada um diria uma frase mas vimos que assim nao funcionaria, iria parecer uma briga e nao uma diálogo. Entao achamos o lance, cada um leria um texto inteiro.

Funcionou.

E ái tem esse video do ensaio em que estamos drinkassos e nao parávamos de rir:

O camarim do Sesc super abastecido e nao coisa de X-músico, tudo avec elegance, frutas, bebidas... Uma festa. Nos sentimos rock stars! E o que eu achei estranho é que nas apresentaçoes aqui em São Paulo nos tratam como ‘poetas cariocas’, nao me sinto mais assim, sou meio que do mundo, somos, mas eu comentava que o meu imprinting é carioca e o sotaque bandeiroso.

Apresentação no Sesc Pompéia,Malocália.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 14h 31min.

Satelizada e embevecida pela poesia, Ellla tem um tempo na fala, pra trás, como os Stones, como a bateria do Charlie Watts em Stcky Fingers. Eu na minha velocidade e ansiedade, tinha que pensar muito pra entrar nesse timing perfeito que ela impunha: ’eu duvido, eu duvido que você diga que eu não sou louco por você, Liége’.

E se movimentava e me olhava de forma libidinosa. Uau!

Então, recitei Soluços, do Capinam. Só que eu falava de uma forma alucinada, um tempo alucinado, como a velocidade e impacto de uma batida de carro.

-” Quando você me encontrar

Não fale comigo

Não olhe pra mim, eu posso chorar”

E eu via por cima do ombro, Ellla me olhando e mentalizando ’fala mais devagar,cara’... Mas não dava, eu estava num frenesi impossível de se controlar e muito emocionado com todos os olhares da platéia.Magnetizado.

Lançamos a poesia, tri-parceria, que será marchinha ou samba-enredo no CarnaVersos, minha, d’Ella e Tubarão, o Tesão da Palavra.

Noite, rumores e seus pudores.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 21h 58min.

Fomos para um bar ao lado do Sesc. E com um pandeiro ficamos horas cantando de Jackson do Pandeiro a Beatles. Mágico. Liguei o notebook e deixei a Michelle, amiga de Pernambuco, pela web cam, assistir toda a festa.

Fomos pra uma casa enorme em Perdizes, um Centro Cultural,laboratório de um diretor famoso, Aluisio Gama, onde alguns amigos recentes estavam ensaiando uma peça apocalíptica.

Foi mais ou menos assim:

Aline no piano

Numa forma bem percussiva.

No ar Maybe I’m amazed

Feito um mantra visceral,

E uma fumaça alucinógena.

Entre drinks e rumores

Corpos iam se despindo

Sem culpa e sem vergonha

Direcionando pudores.

Ellla entre dois corpos

E não precisou se despir para estar nua

E os poemas libidinosos

Que surgiram sem mais naquela hora.

Corpos ociosos

Fazendo sopas ou reclames.

Eu observando sem pressa,

Procurei delicadamente uma fresta,

Procurei um momento oportuno,

Uma brecha, um segundo

Pra na festa eu poder entrar.

E assim a noite se foi,

No entra e sai das palavras

Pela frente e pelo verso.

A poesia brincou sexista

Numa suruba de rimas

Comeram palavras escritas.

Em corpos palavras ditas,

Lambidas na poesia despida.

Entrei com meu conteúdo.

Versos não repetidos,

Palavras, neologismos, jargões que não são meus.

A noite foi uma criança

Maldosa, voraz e quente.

Assuntos interminados,

Deixados para outro encontro,

Que sem data jaz em planos

E predestina em qualquer ano.




Ellla, em citações.

Sempre.

O excesso leva a sabedoria.

Expectante olhar,

Defesa cuidadosa.

Sem esse sonho, viver serviria pra que¿

O vestígio e aura.

Conexões revolucionárias,

Chorar até a saciedade,

Viciado na mesma canção como uma droga.

Eu duvido que você diga que não sou louco por você,

Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua ansiedade.

O trabalho imaterial é trabalho afetivo, o devir feminino de trabalho.

O google o i ching e o Tao na manga.

A solidão positiva,

O desejo de viver no imediato.

Loucura circundante,

O trabalho imaterial.


Algumas citaçoes são:

Mourois,Lispector,R.Russo, Allan Watts, Dylan e Bianca Lamblin.

Outras não lembro.


Obrigado pelo auxílio luxuoso de Michelle Sil, minha Lispector do sertão, na edição e me instigando sempre na minha inspiração. Aquele abraço!

Este é seu atelier poético: http://tricotandopalavras.blogspot.com/


5 comments:

Michelle Silva said...

Original, poético e sublime em sua mitificação.
Inicia-se então um movimento ainda sem nome, pra revolucionar e persuadir na nova poesia brasileira. Você inaugura, você orienta o movimento sem tropicalismo.

Qual é o nome mesmo?

Forte abraço,myby.

Anonymous said...

Sheylão de Castilhão hahahahhahaha Musa.. afffffffff..

edilma said...

Talvez não estejamos numa era tão perdida assim... quando vejo (leio) coisas assim, ainda tenho esperança! demora pra morrer Byra, pra dar tempo espalhar toda essa magia poética pras pessoas... abraço!

(sheyladecastilhoº said...

adorei byrowiski!

saudades da minha reputação... hehehe...

luv, brou!

(adorei também os comentários até do anônimo... tadinho, é apenas um anônimo... rs afinal é tão lindo incomodar...)

Byra Dorneles said...

She
achei q o anonimo era vc se auto sacaneando, RS...deixa a caravana passar

OUÇA A PALAVRA ELÉTRICA VOL.1