Friday, August 31, 2007

ESTRATUAGEM ( paZtor Sugar)


ESTRATUAGEM



(pro paZtor Sugar(foto)- porque ele lia muito esse trecho)


A estrada é minha fixação, minha via respiratória.
Meu Édipo realizado.
Nela sou incêndio. Terremoto/diluvio/ventania.
Sou os quatro elementos em convulsão simultânea.
Minhas garras brilham.
Minha cabeça explode.
Meu sangue corre limpo e perfumado ( na estrada)
Longe da sífilis de concreto.
Faço da pele escamas e garfos (faço) de minhas mãos
Tenho a cor da liberdade
...em estado de graça de riso de sol e nascer do dia
Tenho a paixão das águias
E a transparência das gaivotas ( ao entardecer)
Não pare na ida, não pare na volta
Solte os laços, solte os cintos
Solte o vôo e nós seremos os ciganos
Da rota do Norte.

De Joel Macedo, novembro de 71 ( Livro Tatuagem)

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Wednesday, August 29, 2007


Na quinta só pelo fato de saber que te veria à noite
Acordei feliz
Hoje sei que não
E amanha também
O frisson e o tremor no meu corpo
Me fizeram bem
Aquele homem in-di-vi-si-vel
Se partiu
(Mas ainda não estilhaçou)
Por te conhecer:
Hoje choro menos
E me sinto livre pra te amar
Porque teu olhar me liberta
Tua bandeira
Tua cara tua aura
Me fazem sentir vivo vivo vivo vivo vivo vivo vivo vivo
Tranquilamente...

Boomp3.com

Friday, August 24, 2007


NECESSIDADE E EXPRESSÃO
+ NECESSIDADE DE COMUNICAÇÃO
+ NECESSIDADE DE AÇÃO
+ NECESSIDADE DE PRAZER
= BELAS ARTES.

Mario de Andrade, 1924



Drummond

Com a língua portuguesa eu descobri o mundo
Acordei a princesa
Acendi a chama que ardia dentro de mim
Carlos Drummond de Andrade
Das andadas
Me indicou o caminho do meio
Da rua
O jeito de rebolar
De sacudir as ancas
De acabar com toda essa ansiedade
De fechar os olhos prá essa realidade
Que estão querendo nos vender, nos vencer
Mas luto
Escrevo no papel
Foi Luiz Carlos Maciel quem me aplicou
Juntamente com todo lirismo e beleza
Da língua portuguesa...

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Wednesday, August 22, 2007


Ela me fez mil juras, promessas
Me fará perder o medo do escuro
Me ensinará a dançar
Passeios no zoológico
Me absolveria de todos os pecados
O dia amanhecia
E ela me prometia
Me querer mesmo de mentira
Passar a procuração de todos os seus atos
Beijaria meus olhos enquanto eu dormia
Assim me enfeitiçaria
Me querendo mesmo de mentira
Ela me fez mil juras
Promessas

( Pra Miwky)

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ELA DISSE ASSIM




Ela disse assim:
O amor que você sente por mim
É uma coisa enorme, do tamanho do mundo?
Eu respondi que sim
Que era Drummond
E ela insistia
E o amor que você sente pela poesia
É do tamanho Drummond?
Repeti que sim
Que era Do Mundo
E ela insistia
Drummondd-domundo drummondd-domundo-drummond

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baseado em Go Back




Você me pede prá ir ao cinema
Entenda:
Eu não quero ver nada daquilo que já sei de sobra
Escuta:
Você reclama, bate o pé e chora
Porque não vamos a grandes reuniões?:
-Olha, eu só posso ir até onde eu aguente a barra.
Mas você grita e PERGUNTA!
Porque não vamos ao ci-ne-ma?
E eu repito:
Não quero ver aquilo que já sei
nao quero ver aquilo que ja´sei
nao quero ver aquilo que já sei de sobra...


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Tuesday, August 21, 2007

PORQUE VOCÊ NÃO APARECEU?


PORQUE VOCÊ NÃO APARECEU?

PORQUE VOCÊ NÃO APARECEU?

Porque vcê não apareceu?
Tenho te procurado nas gavetas, no meu quarto
Na TV e não te encontro
Tenho te procurado, como procuro DEUS!!:
Dentro de mim, na caixinha do armário
No arroz integral e no Jethro Tull
As vezes fico pensando...
Se você e DEUS prá mim são a mesma pessoa
Porque procuro vocês dois com a mesma intensidade
do meu ser
Com todas as forças que são poucas no momento
Mas eu queria apenas te ter agora
Do meu lado
Acariciando minhas costas librianas
E dançando comigo ao som do Tull
Porque você não apareceu?
Porque você não apareceu?



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de repente....

DE REPENTE

De repente Ficou tão tarde
Meu rosto olhando prá trás
Você quem disse...
O brilho nos olhos
Continua o mesmo
E a vida corre do mesmo jeito
Apenas os meus dedos não seguram mais as mesmas coisas
Os mesmos versos
Você quem disse
E eu não entendo porque de repente ficou tão
Tarde
E eu me sinto assim tão disperso...


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Pensando no baby...




Depois de tantos telefonemas pro Rio
Me sinto assim
Pesado, passado...
Pensando que apesar de 8 anos
Continuo cheio de dúvidas
Tanta solidão
Que não te conheço
Que não sei o que passa
Pelos teus dedos
Tua cabeça
Que não sei o que comes
Com quem você dorme
Então quando pego no fone
E penso no Baby
Não consigo me exprimir
Você não vê os gestos que faço
Não consigo ver a cor dos teus cabelos
Mas sei que você morde os lábios
O tempo todo
Cheia de dúvidas...
Pensando no Baby


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Monday, August 20, 2007

Lucille






Lucille

ACTION ONE (piloto)

para Lola e Nina e Mell.

No centro da sala, diante da mesa, Ella e sua mãe. Eu me sentia julgado, enquanto a mãe fingia mexer no celular, e não me ouvir,mas pra mim qualquer afetação de indignação ou negação teria me afetado menos que o desprezo silencioso, ou a calma falsa que precedia cada ação de sua filha. Paranóia. Eu andava obcecado e o meu peito parecia explodir. 

Não, eu me controlo. Levanto e pego uma taça de vinho. As duas fingem não ver meus movimentos. Será que consigo descrever minhas sensações¿ A noite posta sobre a mesa. Estão fingindo olhar o celular  e me julgando. Penso em sair da mesa alegando que vou fumar, mas elas sabem que não fumo, Como sair disso agora¿ Paranoia.Eu não deveria por uma data pra essa estória pois é ́uma cena persecutória numa mesa de jantar com uma família que tento mais uma vez me adequar, mas eu começo a contar as história sobre a igreja  e o Velho testamento... a algazarra crescente exponencial  de minha cabeça em ́pânico atingia níveis...Pàranóia. 

Eu vou levantar. Eu vou conseguir travar um diálogo. Vou sair pra fumar e nunca mais eu volto. Tudo isso rodava na minha cabeça como num filme. Me passa a salada. Ah, Kardec, sim...

Nessas horas penso em chamar  Deus mas estamos de mal desde a segunda guerra quando Ele deixou tantos judeus morrerem covardemente¿ E também por que Ele não fez aquela bala parar em 8 dezembro de 80¿ Choro a  morte de Lennon todos dezembros.

De volta a mesa. O Amor por princípio, era somente isso que movia minhas ações nos últimos tempos mas eu estava obcecado, não vou negar. O princípio na busca do prazer, seria Impossível eu ver um futuro luminoso a partir de um presente nebuloso. E eu amava demais Ella e havia me desprendido de todas relações duvidosas anteriores, total liberto.

Eu havia voltado a minha atividade de guerreiro, a arte de espreita, de Caçador- já tinha até dois discípulos e pela manhã e no por do sol fazíamos exercícios pela rede e meditações e Passos do Poder em praias imaginárias. Eu precisava realmente sair desse lugar e deslocamento da mesa no centro da sala, mas Ella me puxava com seus grandes olhos verdes. Eu andava obcecado.

Inveja hereditária e circular, mais uma vez uma sogra no meu caminho, e essa culpada e não-católica até a medula. Não confio em ninguém com mais de 30 aos que frequenta templos e principalmente se for protestante!

Era um deja-vu: ....................

E quando eu comecei a emular as minhas opiniões, e me examinei no íntimo eu não tinha mais certeza de que não sentiria medo de me expor...eu já não sabia...

 Motes:

Desumano voluntarioso  impetuoso

Dança irreal ao som de melopeias imaginárias

Os ciganos que sabiam  de todas as coisas

 

ACTION TWO.

(“ Se em sua vida te incomodei,ao morrer, serei sua morte”)

Liége!!!



Você pode até dizer, Liége
Que meus olhos são surdos
Meus ouvidos são cegos
Aceito
Tudo bem
Até que você é louca também
Agora negue
Que a minha boca é muda, surda
Que meus olhos são cegos- os ouvidos surdos
Eu duvido que você diga que eu não
Sou louco por você
Eu duvido que você diga que eu não
Sou louco por você

Prá te agarrar na Cinelândia
Te assustar com a minha língua
Te matar com tanto amor
Agora, só porque meus olhos ficaram de frente pros teus
Não é motivo prá você querer arrancá-los
Só porque eles choram e são tão sinceros:
Liége




Fundo do Oceano.



FUNDO DO OCEANO


As vezes tenho medo que alguém sonhe com o meu quarto
Mexa nas minhas coisas, abra minha gaveta, revire meus textos
e descubra assim, o meu lado obscuro
Tipo o lado desconhecido da lua, "the dark side"
O fundo do oceano
Desvendando aquilo que guardo, que calo
As vezes tenho medo que alguém sonhe com o meu quarto e mexa nas minhas coisas
Leia meus panfletos e descubra assim que a minha revolução
É muito particular
Que minha loucura é pessoal e controlada
Que eu não estou acessível
Que eu sô apaixonado
Que eu acordo e vou prá rua feito um caçador
A espreita do novo...
Que eu acordo e vou pra rua feito um caçador
À espreita do NO-VO!!!

Expressionismus


Ninguém precisa ter medo
ninguém se perde,
nem por causa de um movimento.
um pouco de variedade
é sempre desejável.
E muito mais do que isso
não surge desta magia aqui.

Quando um movimento fez muito,
teve efeito arqueológico:
removeu em nós uma castração.

Não se pense, porem,
que a entrega pura e lisa ao tempo
seja regra e o comum.
Os menos dos homens
vivenciam seu tempo,
isto precisa ser visto duramente;
os mais dos homens
tem negócios a fazer
e não tem tempo
para o seu tempo.

Alfred Doblin, 1918


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Wednesday, June 06, 2007

! Clara! E os Quixotes Magistrais


! Clara!e os Quixotes Magistrais.

Clara,sonhei com voce, te contava a estoria de Dom Quixote numa tarde ensolarada no baixo bebe do Leblon.
Voce me escutava atenta e eu pensava em tantos quixotes que eu procurei, li e tentei segui-los vida a fora....
Syd Barret, Baudelaire, Arnaldo Baptista, Neal Cassady, Ginsberg,Timothy Leary, Sergio Sampaio, Torquato Neto.
Voce brincava com o mouse , clicando nas fotos já desgastadas da rede, sorria e curiosa: Quem é esse? O que ele tem no cabelo?
Era Syd Barret, o freak fundador e mentor da fase mais lisergica do Pink Floyd, Umagumma/Piper. Um dia ele pirou e foi pro palco com um pasta branca na cabeca, uma mistura de varias drogas, artane, mandrix,sua cozinha anfetaminica. Todos os 'aliados' na sua busca insana de equilíbrio, no fio da navalha. O cara não habitava mais um lugar e sim a própria velocidade. A solidão positiva, a loucura circundante.
Eu nao podia dizer isso assim dessa forma pra ela, entao fiz uma sutil parabola:
aquele moco com pasta branca na cabeça, queria ser um palhaço , ele adorava ir ao circo mas nao gostava da roupa multi-colorida e exagerada dos palhaços,
tampouco suas maquiagens forçadas, entao optou por uma máscara algo que nao lembrasse o nariz vermelho dos palhaços. “ A esquizofrenia e o ato criativo andam de mãos dadas e o individuo pode oscilar de um para outro.”
Ela aumentava a foto e seus amiguinhos riam da cara e da roupa de Syd.
"Eu conheço um quarto de sons musicais/ Uns rimam, outros tocam/ A maioria deles é mecânica/ Vamos lá fazê-los funcionar”, uma das letras
de Syd.
A proxima foto que ela clicava tinha um cara com uma roupa militar, tal um 'sargento' cheio de medalhas e na capa do jornal, janeiro de 82, estampava:
“Vôo para a morte...” Curiosa, ela apontava e me olhava. Era o Mutante Arnaldo Baptista. Depois de se auto-exilar de sua banda,Os Mutantes, ele cria a “Patrulha do Espaço”.Anso depois, sozinho, traduziu pro portugues todas as musicas que tinha feito na Patrulha do Espaço e grava Singing Alone ( onde toca todos os instrumentos).
Esse disco e Loki? Foram discos impactantes, marcos da minha geração. Apos se separar da Rita Lee, entra em profunda depressao, era o fim do sonho de Lennon pré-anunciado.
Mais uma vez eu nao podia sobrepor o meu olhar, deixando livre o seu lirismo e seu descondicionamento. E explicava:
Clara, ele queria voar, ficou tao livre de suas amarras, não se encaixava em nenhuma forma de organizaçao, prisioneiro a céu aberto, que se jogou do terceiro andar, no primeiro dia do ano, estava sozinho, a solidao era tanta...e...
ele correu num voo cego pelas salas imensas...o seu vôo apontava o desencanto pelo mundo real.
“ Suicidar-se era viver, o ultimo ato vital que lhe restava.”
Clara, fez que entendeu, como convém a uma crianca. Estatico, pensei, como lidar com uma crianca que sabe?
A proxima foto foi eu que abri: Neal Cassady.
Era dificil falar algo pra Clara daquela figura tosca ali, na ferrovia.
Era dificil imaginar Neal parado, o cara que nao parava de falar e gesticular, os braços muito abertos. O cara que foi o guru dos beats e muito pouco reconhecido, muito pouco escreveu mas sempre me fascinou, por todo o ocio e o não-fazer que adotou. Ele disse nao ao sistema desde cedo e foi muito importante na minha adolescencia, ficava imaginando como seria sair assim sem
destino,por toda a América ou o Brasil. Tentei fazer o mesmo aos 17, com minha irma de 14 anos, pegamos um trem e fomos pro sul, sendo parados pela policia o tempo todo,mas sempre tinhamos uma vantagem acima de sua surpresa: meu pai havia assinado um documento nos dando a maioridade....
Neal se casou duas vezes com a mesma mulher, Carolyn Robinson, e isso me fascinava. Ele roubou dez mil dólares da Carolyn, que pediu o divorcio. Anos depois eles se reencontram e se casam de novo. Finalmente, em 63, se divorciam novamente após Carolyn flagar o triangulo, Neal, Ginsberg e LuAnne na cama.Tiveram três filhos e ela escreveu uma biografia sobre essa tumultuada relação. Minha cabeça ficou com essa ação persecutória e idólatra: pensei muito em casar de novo com minha ex que se divorciou a minha revelia. “Estamos presos um inferno de frenética passividade.”
Mas isso não é assunto pra Clara, que quer saber de Alice e o País das Maravilhas, e eu, avô precoce, com cara de filho sem pai, com cheiro de verde, ainda estou aprendendo, tentando me esconder da luz do sol que denunciava minha idade.
A próxima foto que ela perguntava seria difícil, muito doloroso eu contar algo que não a chocasse pois eles foram ( e são ) partes da minha vida desde que eu tinha 13 anos, desde sempre; Os Sete de Chicago: Jerry Rubin, Abbie Hoffmann e... Rubin estava de palhaço e era mais fácil de contar algo. Mas, como, se durante anos eles foram neutralizados pela sociedade de controle que se funda no poder da tecnologia e convertem toda sua revolução numa brincadeira de garotos desorientados e drogados?
Bem, Clara, ele era um palhaço e foi a um julgamento com seus amigos porque suas brincadeiras não faziam ninguém rir no circo. Eles tentaram depor um presidente que fomentava a guerra do Vietnã.Foram presos porque em 68,incitaram, pararam Chicago com ações,pequenas ações desobientes civis, atrapalhando o trafego, fazendo pequenos incêndios, subindo nos carros e gritando em megafones palavras de ordens contra a sangrenta guerra do Vietnã.Eram o shippies politizados, que se auto-denominaram Yppies- Partido Internacional da Juventude. Eles tinham ao seu lado nada menos que o lendário escritor Norman Mailler, Lennon, Ginsberg e John Sinclair. Foram todos presos e o seu julgamento foi um verdadeiro happenning com uma grande parte dos expoentes da contracultura presentes...O julgamento foi notícia em todos grandes jrnais do mundo, eu tinha 13 anos e recoreti uma matéria de capa da Manchete e dali veio o meu envolvimento. Vivíamos empelna ditadura militar e aqueles caras me incitavam a fazer pequenas revoluções no ginásio.
Jerry Rubin e Abbie Hoffman não fizeram concessões, preferiram passar fome a traficar com as letras. Rubin escreveu o livro DO IT, em que propõe um porco, o Justus, como presidente da América.
“ O objetivo principal hoje não é descobrir quem somos, mas recusa-lo.”
Ainda teriam tantas fotos e tantos quixotes, eu não precisava falar de todos de uma vez,as fotos estavam ali: Lucien Carr, Tim Leary, Burroughs, Sartre...temos todo o tempo do mundo, não é Clara? Somos tão jovens....

As frases entre aspas são de Rollo May,Laing e Foucault. Algumas eu copio e cito e outras eu não lembro de quem são.

Esse texto é dedicado ao amor incondicional que nutro por Alexandre Do Val e por tudo que ele me propiciou.
O SELVAGEM SERIA O OUTRO DO CIVILIZADO?

Thursday, May 10, 2007

É Paulo, São Mutantes.



Harém da Imaginaçao.

São Paulo, dia 25 de janeiro, aniversario da cidade. 21:15h. Após a apresentação apocalíptica de Tom Zé, entram no palco Os Mutantes. Sim, Os Mutantes. Os irmãos Sergio Dias e Arnaldo Baptista,Dinho e a nova mutante Zélia Duncan.
Sergio e Arnaldo visivelmentes emocionados, os olhos de Serginho brilhavam muito. Fantasiado de D. Pedro I, Arnaldo de capa, ao som de D. Quixote. As 50 mil pesssoas vieram abaixo, era pura emoção!
Na cabeça de Serginho Os Mutantes nunca acabaram, estavam de férias prolongadas.Sim, mais de 30 anos, mas, por suas suas entrevistas, sempre falou nos Mutantes no presente e sempre disposto, aberto a volta, a re-volta dos Mutantes; quando seu desejo passou a ser mais que um cego impulso. Não se via ali a bipartição, antes e depois.
Ninguém sai ileso após ouvir os Mutantes.Como disse Gilberto Gil na capa de seu segundo disco,’não existe camisa de força nem guarda-chuva contra os Mutantes’. Eles sempre foram um “continuo vir-a-ser”, jamais se limitariam a uma compreensão esquematizada.
Me lembro que em 2004, na casa de Lucinha e Arnaldo em Juiz de Fora, quando fomos assinar com Aluizer o contrato do cd Let It Bed do Arnaldo, que saiu pela Revista Outracoisa. Fomos eu, Lobão, Regina, Cris Aspesi, saímos do Rio as 06 da manhã e fomos ouvindo todos os discos solos de Arnaldo ( que eu levei pra ele autografar mas me intimidei na hora) e o assunto veio à baila: Os Mutantes. Aluizer ( empresário do Pato Fu e agora dos Mutantes), muito entusiasmado falando nessa possibilidade remota, naquela época. E o Lobão contando estórias do final dos anos 70 quando montou uma banda tumultuária com Arnaldo Baptista e Arnaldo Brandão( A Bolha, Hanói, Hanói) e nem tinha nome. Brinquei e disse que deveria se chamar 1 Lobao e 2 Arnaldos. Todos riram. Mas a idéia foi abortada após algum tempo, pois eles ensaiavam na casa da namorada do Lobão, a ex do tecladista do Yes, Patrick Moraz e, segundo o Lobão, vivia uma situação de prisão domiciliar , por ser mais novo e tal e ela proibiu os ensaios! Imagina o som que deveria ser isso!!! Já tinha sido detonado o som progressivo e o punk então fervilhando.Enfim, são estórias que o próprio Lobão deverá contar no livro que está preparando na comemoração dos seus 50 anos.
O show. Ponto alto na música Dia 36 em que Arnaldo se solta e a letra, claríssima na sua voz com o mesmo efeito do disco, seria um pitch ou flanger?
Esquece, não pensa mais...
Sérgio super emocionado errou a letra de Balada do Louco sob o olhar sempre atento da Zélia Duncan,e, assim também, em Bat Macumba que se percebia um duelo entre ele e Zélia, quem vai errar a letra? Poesia concreta e visual em que se forma a asa de um morcego e a letra K, glauberiana e desbundada, quando brinca com macumba e iê-iê-iê, um sacrilégio em épocas de ditadura e engajamentos.(68)
Eu não acreditei quando colocaram dois microfones no centro do palco e entrou Tom Zé cantando Qualquer Bobagem, letra fragmentada,de intenções fugidias, quase gaga, em que o cara parece que está bêbado e tenta: es-c-ute essa c-c-anção, ou q-qualquer bobagem...ouça o coração...
A emoção maior, pra mim, foi quando o Serginho anunciou a banda, um brilho nos seus olhos quando fala do irmão, abre os braços e diz:
Nós somos os Mutantes!
Todos juntos numa pessoa só, 50 mil pessoas. Emocionar 50 mil pessoas é tão fácil quanto respirar.



Esse texto é dedicado a Cris.Tina que não teve medo e correu não atrás, mas sim, correu na frente do sonho e vai realizá-lo porque merece.

Foto do site de Bruno Torturra.

Sunday, November 26, 2006

LU AR


LU AR

Foi tudo programado. A gente sabia que cada passo dado seria histórico.Duca ria e me abraçava e andava lentamente como em camera lenta.Isto é história:íamos a pé para a casa da Vera, em Belo Horizonte, irmã de Lucinha, onde ela e Arnaldo Baptista se hospedam. Saímos assim que terminou o sound check da Orquestra Imperial.Compramos algumas cervejas e o trajeto foi tão longo que bebemos todas as latas." A gente bebeu, a gente fumou tanta coisa por aí..."
Tínhamos uma grana pro táxi e negociamos: Vamos comprar uma dúzia de latinhas e seguimos a pé. Não sabíamos o quanto era longe, acho que uns 3 km e acabamos com todas as cervejas...
Duca Moobwa, um cara branco,canabico, 20 e poucos anos, de classe média, gesticulava e falava muito rápido, balançava os braços exageradamente, feito Neal Cassady. Com tantas tatuagens e andar descolado de estradeiro, roadie, Duca, se parecia em qualquer lugar do planeta como um cara que tem uma banda de rock e ele tinha mesmo: Uma aparência inconfundível. E segredou, Cara, tenho um plano de jogar sem regras contra a sociedade, não sei fazer nada além de tocar guitarra e rock’n’roll....confesso que não entendi mas assenti, não iria medrar pelo silencio.
Quando acabaram as cervejas mas nao a sede, recordei um conto do Caio Fernando Abreu, do livro Morangos Mofados, em que o cara vai ao encontro do seu amor, e cai. Chovia muito e quebra a garrafa de conhaque e fica com vergonha de chegar com cheiro de álcool. Quando chega lá, ele bate, bate, bate na porta e... Como se chama o meu amor mesmo? Ele esquece o nome!!! É a cara das letras do Arnaldo, principalmente nas músicas que ele fez com a Patrulha do Espaço e Singing Alone, com seu palavrório assombroso, como se a sua integridade psíquica estivesse por desabar:
“...Hoje de amanhã eu acordei e pensei onde esta o arco íris?
Já não sei se voce é o arco íris
baby
Acordei sozinho e pensei: preciso de dinheiro
Já não sei se voce é o dinheiro
Será que baby sou eu?
Será q baby é vc?...Sera que Baby e Deus?
...É um pouco assustador, não é?...sexy,sexy sua, sexy sexy nos ouvidos...posso até me suicidar até o sol raiar...”
 
Lembrei da primeira audição do recente CD do Arnaldo, Let it Bed, na casa do Lobão, em que nos emocionamos, eu e Liege, ao ouvir " Bailarina", uma bossa jobiniana ( não uma dança fortuita), com letra e fatos experimentais caóticos que na lingua ‘arnaldês’ ficam tão simples, mesmo desconstruindo tudo:

me dá o prazer de ser mortal-imortal...

Fiquei extremamente feliz e pensei que isso não poderia ser um ato solitário, a minha felicidade tinha que ser compactuada , eu precisava dividir com todos e eu falava e falava das músicas e o cd saiu quase um ano depois. Me lembro de uma audição com os integrantes da banda Cachorro Grande e Lobão e o Fernando Sr. F em Brasília, todos extasiados com o cd.  
Eu tinha vontade de perguntar para o Arnaldo sua orientação religiosa,fiquei curioso após ouvir L.S.D. em que ele diz, numa defesa profana: Louvado Seja Deus que nos deu o rock n´roll...Recentemente, Lucinha me disse que ele era ateu apesar de evocar tanto Deus nas suas músicas, “ se eu posso pensar que Deus sou eu e bruuuuuuuu....” em “ Balada do Louco”. Deus parecia seu objeto de obsessão, como se o Principio fundador, onipresente, também responsável pelo rocknroll, o cosmo virando caos de novo. A regravação dessa musica no Disco Voador potencializa com emoção exacerbada e angustiada, num disco com precários equipamentos técnicos em que o produtor Calanca escreveu em letras garrafais na contra-capa: Somente para Fãs. Arnaldo, perpetuamente brandindo sua procura, dando bandeira do pic-esconde entre Deus e ele. Ali, num impulso solitário mais uma vez ele grava sozinho todos os instrumentos. Lobão que recentemente gravou assim o cd “Canções Dentro da Noite Escura”, ao ser perguntado por um jornalista como era tocar todos os instrumentos, se não era solitário demais, ele disse, Mas um pintor também não faz seus quadros sozinho...?
Arnaldo fez um desenho pro Lobão, com as incriçoes: Lá Si Dó, sua eterna obsessão pela brincadeira, trocadilho, LSD. Sempre Deus e o acido lisérgico nas suas letras...só quem experimentou pode entender o seu recado. Deus e rock’n’roll. Deus e acido, complementares ou feroz antagonismo? Sua busca quixotesca por Deus? Ou deus?
JESUS... BACK TO THE WORLD....
Mais citacoes em Tacape: ‘por seu amor esqueço até de Deus...

Mas o papo fluía e não queria estar ali com papo inquisidor e afinal fomos lá para beber e matar as saudades.Nos falamos por e-mail quase diariamente há dois anos e eu sentia muitas saudades deles,me sentia feliz em ver os olhos de admiração e amor de Lucinha... a felicidade a fazia luminosa. “deve ser amor que estou sentindo, ´so pode ser amor que estou sentindo, yeah..”
Recomendei ao Duca pra não ficar esmiuçando o passado e tal, falando de Rita Lee....e assim que começamos a conversar eu disse que iria nascer minha primeira neta, Clara Peticov, e Arnaldo recordou que o Antonio Peticov, que foi também seu empresário, foi o cara que fez aquela famosa calça de couro que está na capa do Lóki? Daí falamos sobre o festival de São Lourenço, onde Lucinha disse te-lo conhececido e foi um pulo pra Rita: o André Peticov, avô da Clara! fez a capa do melhor disco de Rita, pré-Roberto de Carvalho: “ Atrás do porto tem uma cidade”....e não paramos mais de falar do passado...Então Arnaldo foi até o equipamento de som e trocou o disco do Queen pelo novo do Pato Fu e cantava todas as letras.

Depois de nos mostrar seus desenhos e camisetas, bebemos e fumamos e convencemos todos a irem ao show da Orquestra Imperial, após acabarmos todo seu estoque de cigarros e de cervejas.
Chegamos.
Foi mágico circular pelo salão onde todos queriam cumprimentar o cara. No camarim todos os músicos queriam vê-lo, conversar, acho que os mais novos nunca deviam te-lo visto. Arnaldo me perguntou quem era o Moreno, filho do Caetano veloso e os apresentei. Fiquei orgulhoso por estar em sua companhia, por conviver no mesmo espaço com um cara de sua dimensão histórica e musical, um verdadeiro outsider, sempre esteve a margem, desde O Seis, dos Mutantes e de sua carreira solo.
Pensei isso hoje: Os Mutantes não acabaram. Nesse exato momento em varias partes do mundo tem alguém ouvindo Mutantes, numa orgia perpétua. Só que Sérgio, Rita e Arnaldo não estão mais juntos, mas a sua musica esta tão presente com músicos diversos como Beck, Curt Cobain, Sean Lennon, David Byrne...
A revista inglesa Mojo os colocou em 12º lugar, numa lista dos “ 50 Most Out There Álbuns of All Time” ( os 50 discos mais experimentais de todos os tempos), ficando à frente de Pink Floyd, Beatles e Frank Zappa! Como bem descreveu o jornalista Will Hodgkinson, “ os Mutantes eram adolescentes brasileiros do LSD que descontruíram Beatles para reconstruí-los novamente..."
Recentemente a canção Minha Menina foi regravada pela banda britânica The Bees em seu primeiro disco, Sunshine Hit Me.
Nesse show que os Mutantes fizeram agora em Londres com os três originais, Arnaldo, Sergio e Dinho e Zélia Duncan nos vocais, a revista Time Out os chamou de “ a maior banda psicodélica de todos os tempos”.
Voltando ao Let It Bed: O cd foi aclamado em diversas partes mundo, por críticos e revistas especializadas de rock como o site Euro Club de Jazz pelo jornalista Bruce Gilman.
Ali, após anos sem gravar, mas experimentando sons em casa e estudando e lendo sobre física quântica, na minha opinião, Let it Bed é sua experiência de pico, seu nirvana musical. Um cd que funciona com um I Ching, que deveria ser vendido em farmácia, antídoto pré-depressisvo em que Arnaldo voa e coloca toda a sua linguagem peseudo-caotica (altamente subjetiva) sem freios. Nesse cd ele não fala português, ele apenas usa a língua como referencia, ele fala Arnaldês, uma língua pra iniciados, que se parece com o português mas não tem a amarras dessa língua. Língua, essa, que só quem ouviu Loki? Exaustivamente conhece e logo se identifica.
Voltando.
Levei alguns drinks pra eles que foram pra platéia superior assistir aos sambas psicodélicos da Orquestra. Numa dessas vezes em que voltei a Vera me disse que eles tinham ido embora. O Berna que é o maestro da Orquestra, havia acabado de convida-lo pra uma canja, fiquei pensando em como seria Lóki? tocado com tantos instrumentos...fica pra próxima!

Fica aqui registrado a força gravítica que a música do Arnaldo exerce sobre a minha vida desde os 13 anos e também, obviamente, o amor que sinto por ele e Lucinha.


Escrito ao som exaustivo, no maximo volume, do cd Let It Bed. Procure fazer o mesmo e viaje. ( Louvado Seja Deus!)

Tuesday, November 21, 2006

DupraT


Duprat se foi! O pirata de todos os signos!
Acordei com essa noticia. Peguei todos vinis  dos Mutantes e saí pela Niemeyr chuvosa. Nos ouvidos uma canção hippie em que Gal dizia e eu sampleava: Meus dedos cheio de anéis e minhas calças vermelha de Flash Gordon.
Fui ouvindo tudo o que tinha do Duprat. Passo a passo, um por um, cada disco me remetendo obviamente à minha atribulada vida afetiva, tantos casamentos...
 Me lembro quendo ouvi o primeiro Lp dos Mutantes aos 13 anos. A cara da minha mãe, imagina! Mais assustada que eu. Quem são esses caras? E Panis et Circencis com a rotação terminando como se houvesse caído a energia elétrica. Nessa época eu namorava Lucylle, então com 12 anos e ela era obrigada a ouvir diariamente comigo todos os discos dos tropicalistas.
Havia  um Lp do Gil em que Duprat fazia uma colagem sonora de guitarras do Serginho Dias com maracatus e  frevos e um som típico de banda do interior.
Ele foi sempre cultuado, na mídia paralela, como o George Martin dos Mutantes. Pra quem não sabe, Martin foi o maestro, arranjador, que produziu os melhores discos dos Beatles.
No inicio da década de de 90 ele veio ao Brasil e fez uma apresentação aqui no Rio, na Quinta da Boa Vista, ao lado do zoológico. Eu passava por uma crise no meu segundo casamento, uma de tantas...aí no meio do show cheguei pra Sara e disse: Seguinte, to pedindo demissão do nosso casamento.Ela espantada, Como assim? É, to saindo, tenho outros objetivos, quero ter uma filha e tal, voce não quer...
Foi muito difícil, penoso continuar aquele assunto: Eu dizia, sem convicção: As contas são minhas, os filhos são nossos, os vacilos e pecado todos meus (meus amores).  Foram quase duas horas ouvindo aqueles belíssimos arranjos dos Beatles e minhas, (suas) lágrimas se confundiam com a emoção do show e o impacto, o dado imprevisível, o pedido de distrato de casamento. Os pecados e os vacilos sempe meus....Além disso tudo chovia muito e as lágrimas....
Nós dois sempre fomos assim, a primeira vez que pedi Sara em casamento foi num super-mercado. Sim, nós casamos algumas vezes. E era lá, no meio das compras que a convenci de voltar pra mim algumas vezes...
 
Bom, voltando ao asunto principal: Rogério Duprat, arranjador do disco Tropicália, o petardo inicial do movimento, onde mistura guitarras elétricas ( na época um sacrilégio) com cordas, foi eleito muso-maetro dos tropicalistas. Participou de todas as gravações, nesse período, dos baianos Tom Zé, Caetano Veloso e Gilberto Gil e nas carreiras dos Mutantes e também no primeiro disco solo do Arnaldo Baptista, Loki? Onde os sintetizadores se misturam aos seus arranjos alquímicos. Loki? foi considerado um marco, muito mais pela ousadia de gravar quase tudo num take só (sem emendas)e pelo tom confessional , do que pela própria sonoridade Elton John que Arnaldo vinha ouvindo. Ali, na faixa Uma pessoa só, Rogério Duprat desconstroe tudo, as cordas sobem o volume, a balada se torna quase um rapp, com Arnaldo e suas frases ininteligíveis num discurso bombastico...Era difícil alguém entender essa sonoridade Duprat- Frank Zappeana em 74!
Duprat, conhecido como gênio recluso, nasceu no Rio e se mudou pra Sp em 55. Virulento, já na capa do Tropicália, onde segurava um penico como se fosse uma xicara, ao lado de Torquato Neto, Mutantes, Nara Leão, Caetano,Gil e Tom Zé. Anos depois ele regeu o confuso transito de São Paulo deixando perpelexos tanto  pedestres quanto os motoristas!
 
Rogério Duprat continuou desafinando o coro dos contentes até quando já não ouvia mais e se isolou num sitio no interior de São Paulo e mesmo assim continuou produzindo jingles e algumas musicas para Lulu Santos e Rita Lee na década de 90.
Saudades de seu som e de sua ousadia!

Lucylle me abandonou em 86, após o colapso da relação de mais de 10 anos, na praça Nossa Senhora da Paz, Ipanema, deixou um filho de quase dois anos que Sara me ajudou a criar.
Após idas e vindas, com Sara,  em 2002 quando fui tirar a segunda via do meu RG, para meu espanto, na hora de preencher o formulario descobri que ela havia se divorciado de mim à revelia!
Minha estória com ela(s) terminou ali, mas o som não. Continuo ouvindo Duprat, Zappa e  George Martin, mas nao consegui realizar o meu sonho ( imagino de muitas pessoas) de ve-lo regendo os Mutantes, ao vivo, agora dia 25 de janeiro do proximo ano, numa praca publica em Sao Paulo!

 

OUÇA A PALAVRA ELÉTRICA VOL.1