http://www.palavraeletrica.com/
Ao juntar poesia declamada, uma certa dose de bom humor, batidas eletrônicas, efeitos de dub, além das linhas de baixo que remetem ao funk e ao reggae temos como resultado a Palavra Elétrica do Freak Out Muzik: um coletivo de profissionais de áudio que não produz necessariamente o formato canção.
Quando eu lhe disse que se apaixonaria de novo por mim no futuro Você disse que 'agora já é tarde' Mas o que você sabe do Tempo? O que sabe do Amor? Você não sabe nada Disso Embevecida e magnetizada.
Satelizada por si própria Nunca me 'viu' Nunca viu ninguém além de você. Satélite de si própria Girando em torno de você O seu umbigo o universo O Pluriverso é você
Que na própria grandeza já reflete.
Estrela de dois mundos
Vitima de seus agregados?
Sentiu meu Amor em distância?
Mudou e me quis a seu lado?
Entenda, não somos mais concordância.
Você não sabe nada do Tempo Deixe Ele fora desse assunto Você não me conhece e nunca me 'viu' Deixe o Tempo cuidar de meu Amor Deixe ele passar, Já passou.
Eu desfilava e sacudia as ancas nos corredores do supermercado, A atendente me viu chorando entre as prateleiras Ela viu meus olhos molhados Refletidos na garrafa de vinho Collina. Sarcasticamente riu: - Perdeu. Você tanto a maltratou que ela o deixou.
Negando a todo instante esta blasfêmia Eu não chorava, Eram apenas ciscos nos meus olhos. E escondido entre as prateleiras de vinho Chorei de verdade Desabei sem vaidade em soluços. E pensando em ti e em Blake: Energia é Eterna Delícia. E a distância é como um pesadelo A me assombrar no setor de vinhos.
Ainda estou com os poemas, e o cheiro nas mãos nada apaga, nada tira o cheiro forte da rua, do sol. E os poemas, tantas palavras tontas palavras...talvez isso seja o poema...
“A fama da Sheyla cresceu tanto nos saraus poéticos e slams que as pessoas já não iam apenas para vê-la, você tinha que ser visto vendo a Sheyla”.
Ginástica intelectual.
Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 17h 11min.
Hipotecar sua própria liberdade futura. Num tom tão definitivo que nenhuma réplica era possível.
Nunca perdia tempo e mostrava em tudo um ardor apressado cuja origem me era desconhecida. Síndrome de home less, sempre que passava por hotéis pegava um cartão. Sentimento de permanência, urgência.
O vínculo entre sua obsessão com as palavras e sua maneira torrencial de falar, de modo denso, armazenada em sua memória precisa, e raramente repetidas.
É dada a largada.
Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 18h.
Quando Ellla chegou na rodoviária vestia algo indiano,visual exótico,lenço nos cabelos esvoaçantes, se vestia como uma hippietardia, mas nada nela era tardio,tudo nela urge. Speed freak da poesia. Nunca perdia tempo e em tudo era um ardor apressado, como a velocidade com que as rimas e as palavras nao óbvias brotam de sua boca.
Gesticulava e se movimentava como um Neal Cassady de saias. Sheyla habita a velocidade com sua felicidade embutida e sua inquietude latente.
A sua poesia sinalizava algo novo, que estava na superficie das ruas, como On the Roadie e os caras mais modernos. E propunha um novo tipo de existência nesse nosso mundo caótico e maravilhoso.
Me deu um beijo e um abraço bem forte.
-Já comeu? Tem dias que não como nada decente. Vamos pro Escócia, na Augustacomer o misto quente 'melhor do universo'-eu disse.
No caminho Ellla assobiava um funk2000 da extinta banda carioca Boato e eu como de costume não parava de falar...
No Escócia.
Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 19h 05min.
Peço para o China dois mistos. Lógico que ele não me reconheceu, nem se flagrou. Sofro desse problema de só ser reconhecido pelos meus parceiros famosos. É assim com a minha ex-namorada Jô que me viciou nesse bar, e também quando circulo pela Vila Madalena com Lobão ou na Europa com Nana Caymmi e Nina Simone.
De saideira, pedi dois cafés com conhaque sob o impacto do olhar do China, mas ele sabia que isso era um pedido clássico. Aprendi esse drink com a Bibi Ferreira quando eu, um jovem desorientado, trabalhava com ela na peça Gota D’água.
Ensaios e devaneios no camarim.
Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 13h 03min.
Descobri o texto original do Liége, que a própria, minha eterna musa, havia feito. E o meu poema Liége na realidade era uma resposta ao dela.Então a Sheyla resolveu fazer assim, cada um diria uma frase mas vimos que assim nao funcionaria, iria parecer uma briga e nao uma diálogo. Entao achamos o lance, cada um leria um texto inteiro.
Funcionou.
E ái tem esse video do ensaio em que estamos drinkassos e nao parávamos de rir:
O camarim do Sesc super abastecido e nao coisa de X-músico, tudo avec elegance, frutas, bebidas... Uma festa. Nos sentimos rock stars! E o que eu achei estranho é que nas apresentaçoes aqui em São Paulo nos tratam como ‘poetas cariocas’, nao me sinto mais assim, sou meio que do mundo, somos, mas eu comentava que o meu imprinting é carioca e o sotaque bandeiroso.
Apresentação no Sesc Pompéia,Malocália.
Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 14h 31min.
Satelizada e embevecida pela poesia, Ellla tem um tempo na fala, pra trás, como os Stones, como a bateria do Charlie Watts em Stcky Fingers. Eu na minha velocidade e ansiedade, tinha que pensar muito pra entrar nesse timing perfeito que ela impunha: ’eu duvido, eu duvido que você diga que eu não sou louco por você, Liége’.
Ese movimentava e me olhava de forma libidinosa. Uau!
Então, recitei Soluços, do Capinam. Só que eu falava de uma forma alucinada, um tempo alucinado, como a velocidade e impacto de uma batida de carro.
-” Quando você me encontrar
Não fale comigo
Não olhe pra mim, eu posso chorar”
E eu via por cima do ombro, Ellla me olhando e mentalizando ’fala mais devagar,cara’... Mas não dava, eu estava num frenesi impossível de se controlar e muito emocionado com todos os olhares da platéia.Magnetizado.
Lançamos a poesia, tri-parceria, que será marchinha ou samba-enredo no CarnaVersos, minha, d’Ella e Tubarão, o Tesão da Palavra.
Noite, rumores e seus pudores.
Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 21h 58min.
Fomos para um bar ao lado do Sesc. E com um pandeiro ficamos horas cantando de Jackson do Pandeiro a Beatles. Mágico. Liguei o notebook e deixei a Michelle, amiga de Pernambuco, pela web cam, assistir toda a festa.
Fomos pra uma casa enorme em Perdizes, um Centro Cultural,laboratório de um diretor famoso, Aluisio Gama, onde alguns amigos recentes estavam ensaiando uma peça apocalíptica.
Foi mais ou menos assim:
Aline no piano
Numa forma bem percussiva.
No ar Maybe I’m amazed
Feito um mantra visceral,
E uma fumaça alucinógena.
Entre drinks e rumores
Corpos iam se despindo
Sem culpa e sem vergonha
Direcionando pudores.
Ellla entre dois corpos
E não precisou se despir para estar nua
E os poemas libidinosos
Que surgiram sem mais naquela hora.
Corpos ociosos
Fazendo sopas ou reclames.
Eu observando sem pressa,
Procurei delicadamente uma fresta,
Procurei um momento oportuno,
Uma brecha, um segundo
Pra na festa eu poder entrar.
E assim a noite se foi,
No entra e sai das palavras
Pela frente e pelo verso.
A poesia brincou sexista
Numa suruba de rimas
Comeram palavras escritas.
Em corpos palavras ditas,
Lambidas na poesia despida.
Entrei com meu conteúdo.
Versos não repetidos,
Palavras,neologismos, jargões que não são meus.
A noite foi uma criança
Maldosa, voraz e quente.
Assuntos interminados,
Deixados para outro encontro,
Que sem data jaz em planos
E predestina em qualquer ano.
Ellla, em citações.
Sempre.
O excesso leva a sabedoria.
Expectante olhar,
Defesa cuidadosa.
Sem esse sonho, viver serviria pra que¿
O vestígio e aura.
Conexões revolucionárias,
Chorar até a saciedade,
Viciado na mesma canção como uma droga.
Eu duvido que você diga que não sou louco por você,
Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua ansiedade.
O trabalho imaterial é trabalho afetivo, o devir feminino de trabalho.
O google o i ching e o Tao na manga.
A solidão positiva,
O desejo de viver no imediato.
Loucura circundante,
O trabalho imaterial.
Algumas citaçoes são:
Mourois,Lispector,R.Russo, Allan Watts, Dylan e Bianca Lamblin.
Outras não lembro.
Obrigado pelo auxílio luxuoso de Michelle Sil, minha Lispector do sertão, na edição e me instigando sempre na minha inspiração. Aquele abraço!
Recebi esse texto no meu post e resolvi publica-lo.Eu tentei explicar pra Remedios II que em Macondo os telefones e a internet nao funcionam. Saudades muitas de Joao Miguel Joao, meu aprendiz de poeta e futuro Borges baiano. Diga pra ele que levo palavras novas na mochila.
"E eu, Remédios II, onde entro nessa história? Você esqueceu-me, abandou-se ou perdeu sua memória? Eu que guardo até hoje nosso fruto desejável, veio ao mundo estimulado igual poesia Neruda e poetando as primeiras palavras disse: “caneta, rima e papel”. Sabendo os pais que tem, nosso filho Miguel João Miguel, veio ao mundo consciente do seu dom de esclarecer, um fado herdado por nós, que fizemos ele nascer. Ouvia você cantar Raul, “O que você quer ser quando você crescer” e dormia calmamente enquanto com isso sonhava, meu amor, sua voz pasteurizada pelo álcool, rápida e linda, permanece em nosso quarto. Você, amor, um pai presente em suas histórias compridas, situações criadas e paixões convencidas. Apesar do inferno astral aquário com libra nossa convivência foi com fervor guardada e por mim sua volta é sempre almejada. Venha ver nosso Miguel, que se espelha em você, mas digo-lhe: seja apenas de uma pra toda vida. Ele responde que será igual você, dono de muitos amores. Ele quer sentir o mundo e sem o maior rancor diz que igual a soneto de Vinicius também quer morrer de amor. Enfim, aguardo noticias suas. Pois sem você canto de alma nua nossos primeiros versos. Nosso destino é incerto, ou como sua vidência disser. Então sejamos “Dalva e Erivelto” a escrever nosso amor do futuro e que em nossos momentos de amanhã possa haver menos inverno. Te encontro qualquer dia com o Miguel João Miguel, levarei um pouco de sol na bagagem, aí ta chovendo muito e ele gosta de olhar o céu em sua plenitude nuvens brancas, isso inspira-o a brincar porque não só de poesia vive nosso baiano pequeno aprendiz de poeta.
“ Ela me fez mil juras, promessas Me fará perder o medo do escuro Me ensinará a dançar Passeios no zoológico Me absolveria de todos os pecados O dia amanhecia E ela me prometia Me querer mesmo de mentira Passar a procuração de todos os seus atos Beijaria meus olhos enquanto eu dormia Assim me enfeitiçaria Me querendo mesmo de mentira Ela me fez mil juras Promessas”
O mais difícil era saber como começar...como eu contar pra ela(s) que eu já tinha programado ter um filho no próximo ano em Salvador.Eu tinha um plano e era bem definido. Sara Rosário. Remédios.
Eu não tinha palavras. Eu e Sara nos encontrávamos quase diariamente, no almoço, em bares muito claros pela primavera e muito frequentados.Ela morava em Barcelona, e eu vivia entre essa cidade e madrid. Dois amores. A gente não falava nada do passado, nossos assuntos eram sempre sobre nossos filhos. Eu tinha um sentimento de culpa ilimitada em relação a Sara, juíza de mim. Era difícil eu me libertar disso tudo, eram 25 anos. Lembro da foto quando nos vestíamos pro casamento.1981. Ela nunca falava dela porque eu falava e falava sobre o que estava lendo ou sobre o que estava escrevendo. Raramente me sentia num monólogo, mas eu sentia um prazer quase mórbido em faze-la me escutar.As vezes ela fingia um interesse forçado.Também flagrava ela, escondida, rabiscar num papel o nome de algum livro que eu comentava ou alguma frase que eu falava.Mas, o que mais me encantava, ainda era o brilho dos seus olhos me fitando, quase com vergonha, ela desviava, fingindo um amor terminado. Mal começado e mal terminado. 26 anos após o casamento ainda tinha um ar de menina sendo descoberta e isso era o mais bonito/radiante. Apenas seus olhos não envelheceram. Sara tinha os olhos da cor de quem observou o mar durante muitos anos, ostensivamente. Não existia nós. Falávamos sempre dos outros, como se estivéssemos exilados, apartados de nós mesmos...
No final de tudo eu poderia passar por doido e dizer que tudo era ficção e eu ainda não tinha perdido a capacidade de chorar. Frases ambíguas. Eu precisava me inteirar mais do pluriverso feminino. Não podia repetir erros e os seus olhos me encaravam pedindo a verdade, mas qual? Rosário morava em Madrid, professora de musica.Nela eu não via olhar de desimportancia pelo meu trabalho.Morava num apartamento espaçoso na Gran Via 41 proximo do café do Hotel Vincci......citava frases e textos meus e via orgulho estampado quando falava de mim pros amigos, todos musicos e intelectuais. Eu me sentia um personagem sonhado por ela, eu me via dentro do sonho dela e não sei até que ponto isso isso me dava a consciência real de mim, até que ponto eu teria que ser responsável a estas expectativas- mas, eu, não podia impedir isso.E sabia que a largaria muito rapido, eu não suportava o peso do seu amor e nao queria ser responsável por isso.
Nesse momento me sinto só, sem a vigília de uma, sem o toque da outra e a vida foi nos levando, nos afastando. Desaprendi a amar, desaprendi de carinho como diria Nana Caymmi. Acho que estou desenlouquecendo.Desfetichizado.Perdi a obssessao feérica que nutria por Sara. Ações persecutórias. Problemas de compulsão repetitiva. Acabou tudo isso no momento que decidi ser feliz.No momento que resolvi entrar em consorcio com meus demônios. Admiti-lo como igual. Eu sempre cheguei nas minhas relações sem bater na porta, me aposso de tudo que posso, de todos entimentos e talvez seja por isso que elas me largam, sou passional ate a pagina vinte. Eu sabia que a necessidade de escrever vinha do meu desajuste com a vida real, do meu conflito interior, que eu nunca iria conseguir resolver através da ação, como disse Maurois.
O mais difícil era saber como começar... Eu tinha um plano e era bem definido. Eu não tinha palavras.Tinha um filho agendado pro proximo ano com Remedios em Salvador. Sara tinha um temperamento bélico,e ao mesmo tempo, infantil. No dia dos namorados comprava flores pra si mesma e também nas datas festivas, no Natal, se dava presentes caros, como se fosse algum amigo oculto, com cartões com imensas dedicatórias. Criou um personagem fake no orkut que lhe mandava scraps libidinosos...Fingia falar no celular com um grande amor...aos poucos ia perdendo a noção de tempo e a esquizofrenia ia tomando campo. Ela me bypassou anos atras, despotencializou o meu amor e aí apareceu Rosario. Rosário tinha os olhos de quem observava tudo muito cautelosamente, de quem havia vivido muitos engarrafamentos, tinha a paciência de Ghandi ou a disciplina de um asceta resignado pela inércia dos carros...
Acabo sempre fazendo coisas para não enlouquecer, como contar essa historia...eu nao recebo visitas, ninguém bate a minha porta. Estou termiando esta estoria e ainda não consegui contar pra Sara e Rosario que terei um filho em Salvador. Elas lerão por aqui.
Pra Miwky ( com amor) e Caio Fernando Abreu que me deu o mote.
Todo jornal que eu leio, me diz que a gente já era, que já não é mais primavera, Oh babe, a gente ainda nem começou!
Acabei de chegar de um show-festa em homenagem a Raul Seixas pela passagem de seus 20 anos, ausente. Raul nunca foi tão presente como nesses anos pós-morte. Eu não me recordo dele em vida, ali no meio dos anos 80 com tanto falatório em torno de sua obra. Me instiga isso. Quando Raul morreu meu filho e minha mulher não tinham nem 10 anos ainda. Meu filho não conta porque ele ouvia John Coltrane, Sonny Rollins, Paul Mc Cartney e Planet Hemp e algo de funk estadunidence que hoje, eu acho que não tinha preparação didática pra entender aquele inferno. Jáa minha mulher é retrô por nascença. Conhece mais a musica dos anos 60 do que eu que vivi e ouvi, próximo, Crosby, Still, Nash e Young e Buffallo Springfield. Então eu entendo porque ela passou a ouvir a velharia dos 60 após se deparar com Nirvana e se perguntou de onde vinha todo aquele som. Eu assisti um show do Raul no meio dos anos 70, acho que Hollywood Rock, no estádio de Remo da lagoa, no Rio, em que ele abriu pro Erasmo e Rita Lee, se não me engano. Ele cantou a metade do show encapuzado, tinha um guitarrista que dirigia com maestria a anarquia alquímica sonora que Raul propunha. Ele fechava o show lendo o manifesto, enorme, da Sociedade Alternativa. Nesse evento ele contava a estória que sempre achei inverossimel de seu encontro com Lennon e Yoko ( com Paulo Coelho) quando fomentavam a criação do pais imaginário, a Nutopia. Após esse show do Estadio de Remo ele foi levado pro aeroporto, deportado, pela ditadura do Médici. Ele lidava constantemente com essa ameaça da repressao , uma questão de escolha. O cara que não estava acostumado aos códigos pré-estabelecidos. Não se se encaixava em nenhuma forma de organização dentro da MPB standartizada, caricatual ou do Rock B. Ou não. Lógico que seria preterido e ejetado pela clã baiana. ( Vide Sérgio Sampaio) Novamente- o que me instiga? o que essa geração mais nova procura ou vê em Raul? Uma saída pro marasmo de suas vidas classe media com pão e manteiga? ?Babe, O que houve na França vai mudar nossa dança? A espera de um mártir (como Cobain e Morrison) que morra sozinho viciado em éter e alcoólatra porque não tinha mais reconhecimento do seu trabalho, tanto pelas gravadoras quanto o seu publico que minguava a todo show? É a eterna espera de um avatar, de um salvador, enquanto todos ficam no poltronismo da TV , dando o valor póstumo ao um cara que morreu sozinho e pobre. Realmente não entendo. Como disse James Joyce, Raul foi guiado por uma utopia, de esperança,de desespero, comovida, buscando agudamente a transfiguração da linguagem poética, no inicio com Paulo Coelho (sim, o mago!) Na obsessão com os limites, falando na sua propria lingua -e sendo estrangeiro- que no final os homens dilaceraram porque era inempregável , excluído e sem préstimo ao estado global (da globo) ou a sociedade?
Preste atenção, e dê o devido valor ao cara enquanto vivo, porque Raul vai morrer!!!!
ps: pra Georgete e Raul Miguel, o filho que teremos.
Escrevi esse texto alguns anos atras e resolvi republica-lo, por motivos obvios!!!!
Estava lendo sobre Michael Jackson, essas ultimas noticias...e é quase impossível eu falar dele sem falar de mim.Na realidade sou sempre auto-referencia e acabo falando de mim quando vou escrever algo.Detalhe: não sou pedófilo! Estou lendo agora o livro “31 Cançoes” do Nick Hornby e posso garantir que se eu fizesse uma lista teria pelo menos uma musica do Miko. Talvez “I’ll be there” ou “Billy Jean”, não sei. Temos quase a mesma idade e lembro dele com uns sete anos dançando com os irmãos na TV ... aí eu cresci e parei de ouvi-lo e ele não. Parou de crescer. Criou seu castelo do Peter Pan, a Terra do Nunca Mais, se trancou lá com todos seus sonhos e acreditou neles todos.Imagino a solidão que dever ser sua vida, o contrato de tristeza que assinou com seu sucesso, perpetuamente intoxicado...Conversava com um amigo na praia um dia desses e comentamos: Miko deveria ganhar o Premio Nobel da Paz por todos seus feitos, suas ações, pela sua canção na década de 80, We are the world...você tem noção de quantos mil dólares eles levantaram com isso? Pois é, ninguém lembra disso, querem só comentar o fato dele ser pedófilo e excêntrico e viver o seu mundo. Quantas pessoas brancas vivem torrando no sol e quantos brancos fazem dreads pra parecer negro?...Mas não, Miko não pode operar o nariz e querer ser branco, é proibido porque ele é preto, puro preconceito, cada um faz o que quiser com seu corpo.É proibido proibir. Não tem uns caras que se tatuam todos, até no rosto? Porque MIko, não? Se é pra criminalizar alguém, prendam todos: comecem pelos pais, que desde a década passada já sabiam desses hábitos infantis do Miko...depois acione as “crianças”...12 anos e não distingue sua sexualidade? Suco de Jesus? Nessa idade eu já sabia bem distinguir um ácido de uma anfetamina!Soube que estão em debates novas leis nos Estados Unidos pra penalizar adolescentes criminosos, não seria esse o caso? Fala sério, desde os 6 anos eu tenho noção de minha sexualidade! Os pais e os meninos estão se aproveitando da fragilidade e poder financeiro de Miko, todos se aproveitaram...ele pagou hospital, curou o câncer do menino, deu de presente um relógio de U$ 75.000 e.... 'Não era algo sexual. Dormíamos. Eu os cobria, punha um pouco de música e lia um livro', disse ele ao jornalista. 'Era algo realmente encantador e doce". No principio, quando o garoto tinha 12 anos isso era bonito, o menino devia achar isso...quando ele conseguiu a grana e atenção que queria e foi discriminado na escola, quando o mundo viu aquele programa de Tv em q ele descreveu isso, e ele já estava com 15 anos, aí não. Michael se aproveitou dele(?)...é óbvio que o menino gostou e é óbvio que Michael dorme com seus amiguinhos e tem uma conduta lasciva com crianças e é óbvio que todos os pais sabem disso e se aproveitam...então o que sobra? Hipocrisia cristã católica e caótica....Michael sofre ataques constantes da imprensa,vítima de perseguição, por ser perdulário e por seus gastos compulsivos de milhões de dólares em lojas de brinquedos e tal, mas o dinheiro é dele, ele não roubou ninguém, simplesmente fez um trabalho impactante na década 80, sua experiencia de pico, acho que foi Triller, sem duvida... e passou anos pesquisando sons e arranjos com o maestro Quincy Jones e vendeu mais de 100 milhões de cds no mundo todo! Ele tem o direito de gastar sua fortuna com o que quiser! Concluindo: Michael tem que ser respeitado, como um homem ( branco ou preto, não importa sua cor) que está a frente de seu tempo, com sua musica e sua vida. Daqui a 50 anos essas acusações maniqueístas serão motivos de pilhéria, como foi a queima de bruxas na Idade Média. Quando toda a moral cristã falida e reacionária estiver extinguida. O Principio do prazer. Deixa o cara viver! Tem uma canção no disco novo do Lobão que me remete a isso tudo e me faz pensar em como deve ser difícil estar sozinho, não ter amigos e os pais sempre tão distantes:
“Pra mim o mundo é só mais um quarto escuro.”(Lobão)
Liguei a Tv na virada do ano. Assistia há algumas horas e pensei: estou na minha própria língua, meu país, mas sou estrangeiro. Aqui e estrangeiro. Me sinto no direito de sonhar meu próprio pais como Henry Miller sonhou Paris que mexeu com toda uma geração. A TV, as rádios, a mídia em geral não falam mais a língua que preciso, que sonho. Perdeu a conexão. A conformidade anêmica da Tv. Dos noticiários. Sou estrangeiro, exilado na minha própria rua, no bairro.
A cidade de elite global cercada de terceiro mundo por todos os lados. Tudo o que a grande saúde dominante não quis saber. As musicas que escuto estão na contra-mao, nas rádios piratas, nas redes. O que mais me entristece é o provincianismo (aliado as religiões, e pela mais vergonhosa tutela clerical) a matutice que impregnou todo o pais nesses últimos anos. Houve um tempo no final dos anos 80 em que eu acreditei que algo fosse acontecer, algo grandioso como previu Glauber Rocha. O Brasil não cresceu, pelo contrario, contraiu uma artrite prematura. Uma elite cercada de terceiro mundo por todosos lados. Os excluídos, os inempregáveis, os velhos, os deficientes mentais. Todos. Excluidos. A comunidade dos desiguais.
E eu não faço parte desse homem estatístico, cyber-zumbi, médio, consumidor ideal, esse gado cibernético que pasta nas previsões da TV. Não. Continuo com a idéia de sonhar meu país, insano sonho e talvez suicidario . Sonhar como Henry Miller e Neal Cassady. A minha realidade é um sonho que ainda terei.
Nos anos 80 as coisas estavam se tornando familiares demais... a minha criação e a minha vida controlável – estava acessivel e previsivel demais- e eu saquei que precisava me desorientar. Aí metornei caçador de novo. Eu estava muito apaixonado e me habituara a ciumosa aflição dos olhos dela.
( Liege!) Havia negociado minha comodidade e meu conforto e então reli Nietzsche e Cortazar e joguei tudo pro alto.
Não tenho nada a ver com o futuro!
Estava finalizando esse texto e me deparo com a seguinte noticia na TV:
O arcebispo de Olinda após excomungar os pais e os médicos que fizeram o aborto na menina de 9 anos que foi violentada pelo padrasto, disse que o crime de estupro é menor que o aborto . ( obviamente não excomungou o tal padastro!) e que os médicos fizeram uma escolha de morte com essa ação!!!!
Como dizia Nelson Rodrigues, o Brasil será no futuro maior país não-católico do mundo. Eu sonho com esse dia, em que não tenham mais igrejas e nem religioes.
Sempre é bom re-lembrar o cara, Nietzsche:
“ o que me separa , o que me coloca à parte de todo o resto da humanidade é haver descoberto a moral cristã. Por isso tive a necessidade de fazer uso de uma palavra que mantivesse o sentido de um desafio a cada homem. Não ter aberto os olhos a mais cedo nesse ponto me parece ter sido a grande impureza que a humanidade carrega na consciência, como automistificaçao tornada instinto, como vontade radical de não enxergar nenhum acontecimento, nenhuma causalidade, nenhuma realidade, como falsificação in psychologicis que chega ao crime...a moral cristã- a forma mais maligna da vontade de mentira, a verdadeira Circe da humanidade: aquilo que a deteriorou.... ....aquela espécie parasitária de homem, a do sacerdote, que través da moral elevou-se fraudulentamente à definidora dos valores, que na moral cristã divisou o seu meio de alcançar o poder...”
Esse texto é dedicado a Sheyla Castilho e Gisele Miranda porque elas sabem ler.
Fortemente inspirado em Peter Pal Pelbert e Norman Mailer.