Tuesday, March 23, 2010

Um verso, dois versos, tortos versos



Volta e meia UM VERSO

Meio forte nunca UNIVERSO iNcErTo

Escrevo amores, dores COM PALAVRAS

Que eu já nem acho CERTAS

E nesse momento são EXPOSTAS

POR ESTES VERSOS

Tão MEUS TÃO

Ambíguos, INÉDITOS.



Meia volta O PLURI-VERSO

Num gesto TORTO

Pela frente E PELO VERSO

Uma palavra suja ROUBOU

Sem amores e pudores UMAS PALAVRAS

Uma idéia amoral e SEM JUIZO

Versos não meus QUE RESISTIRAM

Tão pouco EM MÃOS ALHEIAS


Byra Dorneles e MIchelle Sill



Wednesday, March 17, 2010

Satelite de si


Quando eu lhe disse que se apaixonaria de novo por mim no futuro
Você disse que 'agora já é tarde'
Mas o que você sabe do Tempo?
O que sabe do Amor?
Você não sabe nada Disso
Embevecida e magnetizada.


Satelizada por si própria
Nunca me 'viu'
Nunca viu ninguém além de você.
Satélite de si própria
Girando em torno de você
O seu umbigo o universo
O Pluriverso é você

Que na própria grandeza já reflete.


Estrela de dois mundos

Vitima de seus agregados?

Sentiu meu Amor em distância?

Mudou e me quis a seu lado?

Entenda, não somos mais concordância.


Você não sabe nada do Tempo
Deixe Ele fora desse assunto
Você não me conhece e nunca me 'viu'
Deixe o Tempo cuidar de meu Amor
Deixe ele passar,
Já passou.


passou.





pa
ssou


já pas
sou.

Sunday, March 14, 2010

Miss U Michelle




Saudade é solidão acompanhada,
é quando o amor ainda não foi embora,
mas o amado já...
pablo neruda


Eu desfilava e sacudia as ancas nos corredores do supermercado,

A atendente me viu chorando entre as prateleiras
Ela viu meus olhos molhados
Refletidos na garrafa de vinho Collina.
Sarcasticamente riu:
- Perdeu.
Você tanto a maltratou que ela o deixou.


Negando a todo instante esta blasfêmia
Eu não chorava,
Eram apenas ciscos nos meus olhos.
E escondido entre as prateleiras de vinho
Chorei de verdade
Desabei sem vaidade em soluços.
E pensando em ti e em Blake:
Energia é Eterna Delícia.
E a distância é como um pesadelo
A me assombrar no setor de vinhos.

Sunday, February 28, 2010

War state



War state

Estado de sítio

Estado de guerra

Bélico e beligerante

Os turistas bebendo água de coco na praia

Um Cristo de braços nem tão abertos

E de olhos vendados - vendidos,

Que não redencia a mais ninguém.



War state
Os caras subiram o morro e tomaram o poder

Hoje eles querem grandes armas, não mais roupas de grifes.

Isso tudo abaixo do Cristo.

Rio de janeiro, Rio degenerou.

Estado de sítio.

Rio renda-se

Renda-se Rio.



O tráfico sob o comando das coberturas

Os soldados do alto do morro, meros fantoches.

A classe média com pão e manteiga

Faz protesto de branco sob tutela

Com dedo em 'V' assistindo a novela.



War state

Estado bélico

Estado do Rio.

Minha Guanabara.

Rio a um fio.

Rio renda-se.

Renda-se Rio.



Byra Dorneles e Michelle Sil

Sunday, February 21, 2010

Ellla, cronometrada e comentada.


Ainda estou com os poemas, e o cheiro nas mãos nada apaga, nada tira o cheiro forte da rua, do sol. E os poemas, tantas palavras tontas palavras...talvez isso seja o poema...

“A fama da Sheyla cresceu tanto nos saraus poéticos e slams que as pessoas já não iam apenas para vê-la, você tinha que ser visto vendo a Sheyla”.

Ginástica intelectual.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 17h 11min.

Hipotecar sua própria liberdade futura. Num tom tão definitivo que nenhuma réplica era possível.

Nunca perdia tempo e mostrava em tudo um ardor apressado cuja origem me era desconhecida. Síndrome de home less, sempre que passava por hotéis pegava um cartão. Sentimento de permanência, urgência.

O vínculo entre sua obsessão com as palavras e sua maneira torrencial de falar, de modo denso, armazenada em sua memória precisa, e raramente repetidas.

É dada a largada.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 18h.

Quando Ellla chegou na rodoviária vestia algo indiano,visual exótico,lenço nos cabelos esvoaçantes, se vestia como uma hippie tardia, mas nada nela era tardio,tudo nela urge. Speed freak da poesia. Nunca perdia tempo e em tudo era um ardor apressado, como a velocidade com que as rimas e as palavras nao óbvias brotam de sua boca.

Gesticulava e se movimentava como um Neal Cassady de saias. Sheyla habita a velocidade com sua felicidade embutida e sua inquietude latente.

A sua poesia sinalizava algo novo, que estava na superficie das ruas, como On the Roadie e os caras mais modernos. E propunha um novo tipo de existência nesse nosso mundo caótico e maravilhoso.

Me deu um beijo e um abraço bem forte.

-Já comeu? Tem dias que não como nada decente. Vamos pro Escócia, na Augusta comer o misto quente 'melhor do universo'-eu disse.

No caminho Ellla assobiava um funk 2000 da extinta banda carioca Boato e eu como de costume não parava de falar...


No Escócia.

Sábado, 02 de Janeiro de 2010, 19h 05min.

Peço para o China dois mistos. Lógico que ele não me reconheceu, nem se flagrou. Sofro desse problema de só ser reconhecido pelos meus parceiros famosos. É assim com a minha ex-namorada Jô que me viciou nesse bar, e também quando circulo pela Vila Madalena com Lobão ou na Europa com Nana Caymmi e Nina Simone.

De saideira, pedi dois cafés com conhaque sob o impacto do olhar do China, mas ele sabia que isso era um pedido clássico. Aprendi esse drink com a Bibi Ferreira quando eu, um jovem desorientado, trabalhava com ela na peça Gota D’água.

Ensaios e devaneios no camarim.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 13h 03min.

Descobri o texto original do Liége, que a própria, minha eterna musa, havia feito. E o meu poema Liége na realidade era uma resposta ao dela. Então a Sheyla resolveu fazer assim, cada um diria uma frase mas vimos que assim nao funcionaria, iria parecer uma briga e nao uma diálogo. Entao achamos o lance, cada um leria um texto inteiro.

Funcionou.

E ái tem esse video do ensaio em que estamos drinkassos e nao parávamos de rir:

O camarim do Sesc super abastecido e nao coisa de X-músico, tudo avec elegance, frutas, bebidas... Uma festa. Nos sentimos rock stars! E o que eu achei estranho é que nas apresentaçoes aqui em São Paulo nos tratam como ‘poetas cariocas’, nao me sinto mais assim, sou meio que do mundo, somos, mas eu comentava que o meu imprinting é carioca e o sotaque bandeiroso.

Apresentação no Sesc Pompéia,Malocália.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 14h 31min.

Satelizada e embevecida pela poesia, Ellla tem um tempo na fala, pra trás, como os Stones, como a bateria do Charlie Watts em Stcky Fingers. Eu na minha velocidade e ansiedade, tinha que pensar muito pra entrar nesse timing perfeito que ela impunha: ’eu duvido, eu duvido que você diga que eu não sou louco por você, Liége’.

E se movimentava e me olhava de forma libidinosa. Uau!

Então, recitei Soluços, do Capinam. Só que eu falava de uma forma alucinada, um tempo alucinado, como a velocidade e impacto de uma batida de carro.

-” Quando você me encontrar

Não fale comigo

Não olhe pra mim, eu posso chorar”

E eu via por cima do ombro, Ellla me olhando e mentalizando ’fala mais devagar,cara’... Mas não dava, eu estava num frenesi impossível de se controlar e muito emocionado com todos os olhares da platéia.Magnetizado.

Lançamos a poesia, tri-parceria, que será marchinha ou samba-enredo no CarnaVersos, minha, d’Ella e Tubarão, o Tesão da Palavra.

Noite, rumores e seus pudores.

Domingo, 03 de Janeiro de 2010, 21h 58min.

Fomos para um bar ao lado do Sesc. E com um pandeiro ficamos horas cantando de Jackson do Pandeiro a Beatles. Mágico. Liguei o notebook e deixei a Michelle, amiga de Pernambuco, pela web cam, assistir toda a festa.

Fomos pra uma casa enorme em Perdizes, um Centro Cultural,laboratório de um diretor famoso, Aluisio Gama, onde alguns amigos recentes estavam ensaiando uma peça apocalíptica.

Foi mais ou menos assim:

Aline no piano

Numa forma bem percussiva.

No ar Maybe I’m amazed

Feito um mantra visceral,

E uma fumaça alucinógena.

Entre drinks e rumores

Corpos iam se despindo

Sem culpa e sem vergonha

Direcionando pudores.

Ellla entre dois corpos

E não precisou se despir para estar nua

E os poemas libidinosos

Que surgiram sem mais naquela hora.

Corpos ociosos

Fazendo sopas ou reclames.

Eu observando sem pressa,

Procurei delicadamente uma fresta,

Procurei um momento oportuno,

Uma brecha, um segundo

Pra na festa eu poder entrar.

E assim a noite se foi,

No entra e sai das palavras

Pela frente e pelo verso.

A poesia brincou sexista

Numa suruba de rimas

Comeram palavras escritas.

Em corpos palavras ditas,

Lambidas na poesia despida.

Entrei com meu conteúdo.

Versos não repetidos,

Palavras, neologismos, jargões que não são meus.

A noite foi uma criança

Maldosa, voraz e quente.

Assuntos interminados,

Deixados para outro encontro,

Que sem data jaz em planos

E predestina em qualquer ano.




Ellla, em citações.

Sempre.

O excesso leva a sabedoria.

Expectante olhar,

Defesa cuidadosa.

Sem esse sonho, viver serviria pra que¿

O vestígio e aura.

Conexões revolucionárias,

Chorar até a saciedade,

Viciado na mesma canção como uma droga.

Eu duvido que você diga que não sou louco por você,

Parece cocaína, mas é só tristeza, talvez tua ansiedade.

O trabalho imaterial é trabalho afetivo, o devir feminino de trabalho.

O google o i ching e o Tao na manga.

A solidão positiva,

O desejo de viver no imediato.

Loucura circundante,

O trabalho imaterial.


Algumas citaçoes são:

Mourois,Lispector,R.Russo, Allan Watts, Dylan e Bianca Lamblin.

Outras não lembro.


Obrigado pelo auxílio luxuoso de Michelle Sil, minha Lispector do sertão, na edição e me instigando sempre na minha inspiração. Aquele abraço!

Este é seu atelier poético: http://tricotandopalavras.blogspot.com/


Saturday, January 30, 2010

Carta aberta de Remedios II







Recebi esse texto no meu post e resolvi publica-lo.Eu tentei explicar pra Remedios II
que em Macondo os telefones e a internet nao funcionam.
Saudades muitas de Joao Miguel Joao, meu aprendiz de poeta e futuro Borges baiano. Diga pra ele que levo palavras novas na mochila.



"E eu, Remédios II, onde entro nessa história? Você esqueceu-me, abandou-se ou perdeu sua memória? Eu que guardo até hoje nosso fruto desejável, veio ao mundo estimulado igual poesia Neruda e poetando as primeiras palavras disse: “caneta, rima e papel”. Sabendo os pais que tem, nosso filho Miguel João Miguel, veio ao mundo consciente do seu dom de esclarecer, um fado herdado por nós, que fizemos ele nascer.
Ouvia você cantar Raul, “O que você quer ser quando você crescer” e dormia calmamente enquanto com isso sonhava, meu amor, sua voz pasteurizada pelo álcool, rápida e linda, permanece em nosso quarto. Você, amor, um pai presente em suas histórias compridas, situações criadas e paixões convencidas. Apesar do inferno astral aquário com libra nossa convivência foi com fervor guardada e por mim sua volta é sempre almejada.
Venha ver nosso Miguel, que se espelha em você, mas digo-lhe: seja apenas de uma pra toda vida. Ele responde que será igual você, dono de muitos amores. Ele quer sentir o mundo e sem o maior rancor diz que igual a soneto de Vinicius também quer morrer de amor.
Enfim, aguardo noticias suas. Pois sem você canto de alma nua nossos primeiros versos.
Nosso destino é incerto, ou como sua vidência disser. Então sejamos “Dalva e Erivelto” a escrever nosso amor do futuro e que em nossos momentos de amanhã possa haver menos inverno.
Te encontro qualquer dia com o Miguel João Miguel, levarei um pouco de sol na bagagem, aí ta chovendo muito e ele gosta de olhar o céu em sua plenitude nuvens brancas, isso inspira-o a brincar porque não só de poesia vive nosso baiano pequeno aprendiz de poeta.

Te amo sempre, meu amor prestante..."

Wednesday, January 20, 2010

Sara & Rosário, ou Sara & Rosário e outras.

“ Ela me fez mil juras, promessas
Me fará perder o medo do escuro
Me ensinará a dançar
Passeios no zoológico
Me absolveria de todos os pecados
O dia amanhecia
E ela me prometia
Me querer mesmo de mentira
Passar a procuração de todos os seus atos
Beijaria meus olhos enquanto eu dormia
Assim me enfeitiçaria
Me querendo mesmo de mentira
Ela me fez mil juras
Promessas”


O mais difícil era saber como começar...como eu contar pra ela(s) que eu já tinha programado ter um filho no próximo ano em Salvador.Eu tinha um plano e era bem definido.
Sara
Rosário.
Remédios.

Eu não tinha palavras.
Eu e Sara nos encontrávamos quase diariamente, no almoço, em bares muito claros pela primavera e muito frequentados.Ela morava em Barcelona, e eu vivia entre essa cidade e madrid. Dois amores. A gente não falava nada do passado, nossos assuntos eram sempre sobre nossos filhos. Eu tinha um sentimento de culpa ilimitada em relação a Sara, juíza de mim. Era difícil eu me libertar disso tudo, eram 25 anos. Lembro da foto quando nos vestíamos pro casamento.1981.
Ela nunca falava dela porque eu falava e falava sobre o que estava lendo ou sobre o que estava escrevendo. Raramente me sentia num monólogo, mas eu sentia um prazer quase mórbido em faze-la me escutar.As vezes ela fingia um interesse forçado.Também flagrava ela, escondida, rabiscar num papel o nome de algum livro que eu comentava ou alguma frase que eu falava.Mas, o que mais me encantava, ainda era o brilho dos seus olhos me fitando, quase com vergonha, ela desviava, fingindo um amor terminado. Mal começado e mal terminado. 26 anos após o casamento ainda tinha um ar de menina sendo descoberta e isso era o mais bonito/radiante. Apenas seus olhos não envelheceram. Sara tinha os olhos da cor de quem observou o mar durante muitos anos, ostensivamente.
Não existia nós. Falávamos sempre dos outros, como se estivéssemos exilados, apartados de nós mesmos...

No final de tudo eu poderia passar por doido e dizer que tudo era ficção e eu ainda não tinha perdido a capacidade de chorar. Frases ambíguas. Eu precisava me inteirar mais do pluriverso feminino. Não podia repetir erros e os seus olhos me encaravam pedindo a verdade, mas qual?
Rosário morava em Madrid, professora de musica.Nela eu não via olhar de desimportancia pelo meu trabalho.Morava num apartamento espaçoso na Gran Via 41 proximo do café do Hotel Vincci......citava frases e textos meus e via orgulho estampado quando falava de mim pros amigos, todos musicos e intelectuais.
Eu me sentia um personagem sonhado por ela, eu me via dentro do sonho dela e não sei até que ponto isso isso me dava a consciência real de mim, até que ponto eu teria que ser responsável a estas expectativas- mas, eu, não podia impedir isso.E sabia que a largaria muito rapido, eu não suportava o peso do seu amor e nao queria ser responsável por isso.

Nesse momento me sinto só, sem a vigília de uma, sem o toque da outra e a vida foi nos levando, nos afastando. Desaprendi a amar, desaprendi de carinho como diria Nana Caymmi. Acho que estou desenlouquecendo.Desfetichizado.Perdi a obssessao feérica que nutria por Sara. Ações persecutórias. Problemas de compulsão repetitiva. Acabou tudo isso no momento que decidi ser feliz.No momento que resolvi entrar em consorcio com meus demônios. Admiti-lo como igual.
Eu sempre cheguei nas minhas relações sem bater na porta, me aposso de tudo que posso, de todos entimentos e talvez seja por isso que elas me largam, sou passional ate a pagina vinte.
Eu sabia que a necessidade de escrever vinha do meu desajuste com a vida real, do meu conflito interior, que eu nunca iria conseguir resolver através da ação, como disse Maurois.

O mais difícil era saber como começar... Eu tinha um plano e era bem definido. Eu não tinha palavras.Tinha um filho agendado pro proximo ano com Remedios em Salvador.
Sara tinha um temperamento bélico,e ao mesmo tempo, infantil. No dia dos namorados comprava flores pra si mesma e também nas datas festivas, no Natal, se dava presentes caros, como se fosse algum amigo oculto, com cartões com imensas dedicatórias. Criou um personagem fake no orkut que lhe mandava scraps libidinosos...Fingia falar no celular com um grande amor...aos poucos ia perdendo a noção de tempo e a esquizofrenia ia tomando campo.
Ela me bypassou anos atras, despotencializou o meu amor e aí apareceu Rosario.
Rosário tinha os olhos de quem observava tudo muito cautelosamente, de quem havia vivido muitos engarrafamentos, tinha a paciência de Ghandi ou a disciplina de um asceta resignado pela inércia dos carros...

Acabo sempre fazendo coisas para não enlouquecer, como contar essa historia...eu nao recebo visitas, ninguém bate a minha porta.
Estou termiando esta estoria e ainda não consegui contar pra Sara e Rosario que terei um filho em Salvador. Elas lerão por aqui.

Pra Miwky ( com amor) e Caio Fernando Abreu que me deu o mote.

Saturday, September 26, 2009

Raul Seixas-o cachorro-urubu- vai morrer!!!


Raul Seixas-o cachorro-urubu- vai morrer!!!


Todo jornal que eu leio, me diz que a gente já era, que já não é mais primavera,
Oh babe, a gente ainda nem começou!


Acabei de chegar de um show-festa em homenagem a Raul Seixas pela passagem de seus 20 anos, ausente. Raul nunca foi tão presente como nesses anos pós-morte. Eu não me recordo dele em vida, ali no meio dos anos 80 com tanto falatório em torno de sua obra. Me instiga isso. Quando Raul morreu meu filho e minha mulher não tinham nem 10 anos ainda. Meu filho não conta porque ele ouvia John Coltrane, Sonny Rollins, Paul Mc Cartney e Planet Hemp e algo de funk estadunidence que hoje, eu acho que não tinha preparação didática pra entender aquele inferno.
Jáa minha mulher é retrô por nascença. Conhece mais a musica dos anos 60 do que eu que vivi e ouvi, próximo, Crosby, Still, Nash e Young e Buffallo Springfield. Então eu entendo porque ela passou a ouvir a velharia dos 60 após se deparar com Nirvana e se perguntou de onde vinha todo aquele som.
Eu assisti um show do Raul no meio dos anos 70, acho que Hollywood Rock, no estádio de Remo da lagoa, no Rio, em que ele abriu pro Erasmo e Rita Lee, se não me engano. Ele cantou a metade do show encapuzado, tinha um guitarrista que dirigia com maestria a anarquia alquímica sonora que Raul propunha. Ele fechava o show lendo o manifesto, enorme, da Sociedade Alternativa. Nesse evento ele contava a estória que sempre achei inverossimel de seu encontro com Lennon e Yoko ( com Paulo Coelho) quando fomentavam a criação do pais imaginário, a Nutopia.
Após esse show do Estadio de Remo ele foi levado pro aeroporto, deportado, pela ditadura do Médici. Ele lidava constantemente com essa ameaça da repressao , uma questão de escolha. O cara que não estava acostumado aos códigos pré-estabelecidos. Não se se encaixava em nenhuma forma de organização dentro da MPB standartizada, caricatual ou do Rock B. Ou não. Lógico que seria preterido e ejetado pela clã baiana. ( Vide Sérgio Sampaio)
Novamente- o que me instiga? o que essa geração mais nova procura ou vê em Raul? Uma saída pro marasmo de suas vidas classe media com pão e manteiga?
?Babe, O que houve na França vai mudar nossa dança?
A espera de um mártir (como Cobain e Morrison) que morra sozinho viciado em éter e alcoólatra porque não tinha mais reconhecimento do seu trabalho, tanto pelas gravadoras quanto o seu publico que minguava a todo show? É a eterna espera de um avatar, de um salvador, enquanto todos ficam no poltronismo da TV , dando o valor póstumo ao um cara que morreu sozinho e pobre. Realmente não entendo.
Como disse James Joyce, Raul foi guiado por uma utopia, de esperança,de desespero, comovida, buscando agudamente a transfiguração da linguagem poética, no inicio com Paulo Coelho (sim, o mago!)
Na obsessão com os limites, falando na sua propria lingua -e sendo estrangeiro- que no final os homens dilaceraram porque era inempregável , excluído e sem préstimo ao estado global (da globo) ou a sociedade?

Preste atenção, e dê o devido valor ao cara enquanto vivo, porque Raul vai morrer!!!!

ps: pra Georgete e Raul Miguel, o filho que teremos.

OUÇA A PALAVRA ELÉTRICA VOL.1